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'Sem fim', crônica vencedora do Concurso literário do Centenário, por Hamilton Bassit

  • Publicado em 12/03/2018 - 10:44
  • por Durval Tabach

"Um relato tristonho, mas exemplificativo daquilo que o Clube Sírio pretende como valores primordiais, que são a amizade, o companheirismo, a solidariedade e a fraternidade."

Foi assim que a comissão julgadora descreveu a crônica Sem fim, de Hamilton Bassit, vencedor do Concurso Literário do Centenário.

Segue o texto na íntegra.

Sem fim

Trazer a luz na palma da mão para iluminar a mesa em que nos reencontraríamos; amigos de juventude perdidos na longa estrada da vida, mais de quarenta anos depois? Tive sorte. O encontro se deu.

Eu, Dito e Gurgel já estávamos a postos na mesa no melhor restaurante da cidade. Eu aguardava com certa ansiedade a ocupação do quarto lugar da mesa, estranhamente vago pela ausência do Divaldo - E o Divaldo? Perguntei, estranhando.

Eles começaram a se entreolhar e pressenti que só podia ser algo que não soubesse. Informaram-me então que o Divaldo não viria. Era impossível sua presença. Estava com ELA paralisado na cadeira de rodas.

A notícia desabou em mim como uma cachoeira inesperada, afogando-me, deixando-me sem fôlego. Com os olhos molhados, o almoço não fazia mais sentido. Ao contrário, eles foram me acalmando com a boa nova de que ele me aguardava.

Almoçaríamos e em seguida partiríamos para o apartamento. Pior, muito pior, não conseguiria suportar a emoção. Todavia durante o almoço foram me confortando e consenti em visitá-lo. Entrei no quarto onde estava montada quase que uma UTI. E engraçado, ele me procurou confortar em sua cadeira de rodas. - Estou escrevendo um livro, balbuciou com entusiasmo. - Procure ver o rascunho, está quase pronto. A doença já avançara prejudicando a fala.

Quando verifiquei disseram-me que eram escritos sem sentido e foram amassados e jogados fora. Indignado combinei que juntos reiniciaríamos o sonho de sua vida.

O livro foi assim acontecendo, infalivelmente as quartas feiras, quinze horas.

Ele ditando e eu digitando. Tudo sob a supervisão do Neguinho, seu fiel enfermeiro. Depois de devidamente preparado pelo Neguinho para me receber, eu me apresentava ao Divaldo como seu "enfermeiro literário", pronto para digitar.

Dois atrasos e uma falta que me valeram uma bem humorada advertência: ser cortado da folha de pagamento. Embora posteriormente tivesse sido também admoestado por dois outros motivos: abuso de amizade e repetição excessiva do cafezinho. Era o espírito de descontração.

O Divaldo ditava bem, como um cavalo de corrida na pista.

Meus dedos só descansavam à espera do ponto, ou do ponto -e- parágrafo.

Tive a oportunidade de observar seus olhos claros olhando para o infinito, nas pausas. Parece que vagavam. Eu repetia a última frase, todavia não era isso, ele não precisava de repetição. Seu texto fluía como a nascente fonte de caudaloso rio.

Depois de aproximadamente urna hora ele estava esgotado e com dor. Sua voz já não mais soava. O microfone era retirado da proximidade da garganta, aliviando a dor excessiva que o tubo da traqueia provocava. Outros aparelhos eram então usados para controle da saliva ou para tirar líquido do corpo. O boné de golfista desarmava-se da cabeça, retirado pelo Neguinho, deixando o pescoço pendente e desabado junto ao peito, em estado de repouso. Era o fim da jornada. Dois meses depois o livro já tinha conteúdo.

Só os muitos próximos o visitavam, como aconteceu com o Gurgel que lhe presenteara com um belo exemplar das "Confissões" de Santo Agostinho. Pediu ao Neguinho que o pegasse na segunda prateleira, quarto tomo. Memoria lúcida. O Gurgel abriu um sorriso largo quando viu o marcador no meio do livro. Estava para me surpreender colocando Santo Agostinho na digitação. - E tem mais Gurgel- incluirei Borges. - Por que Borges? - Porque breve estarei cego de voz, disse com uma ponta de ironia no canto dos lábios. O livro tomava corpo. Estávamos animados com o progresso.

No fim da tarde eu salvava o arquivo no computador dele e no dia seguinte o Neguinho imprimia e colocava na pasta para o Divaldo ler. Mas para minha surpresa às vezes ele iniciava uma história distinta.

- Hoje só vamos conversar, não precisa escrever.

Seus olhos claros pousavam em mim, mas olhando para o infinito.

- Sabe, às vezes fico temeroso de escrever.

Seus olhos estavam parados parecendo conter uma lágrima. - Essas histórias são minhas, elas povoam minhas noites e meus dias.

Apurei o ouvido.

- Receio que à medida que vão sendo escritas irem me abandonando, me esvaziando.

Eu me aproximei mais para dentro de seus olhos. Vi uma pessoa pura e digna flutuando lá, mostrando como se deve suportar com nobreza as tormentas do destino.

- Se elas se esgotarem não suportarei a solidão.

Eu não sabia o que fazer.

- Por favor, não escreva, não escreva.

Em algumas tardes de conversa pedia que lesse um artigo sobre a cura da ELA ou se imaginava de mochila nas costas, andando de bicicleta. Ou dançado na academia de Carlinhos Vergueiro, no Rio de Janeiro.

Contar nossa vida é um motivo, por menor que possamos pensar que seja, de prazer e de orgulho. Ninguém passa sem ter deixado um legado. Pode estar no olhar, pode estar no silêncio.

Certa vez para terminar um relato, faltou-lhe a voz; tão sem força no final que num gesto radical pediu-me que ralhasse com ele. Era sua fúria literária reclamando mais recursos físicos.

Este era o receio. As conversas foram rareando. Numa tarde, quando fui recebido, o ambiente era de apreensão. Fiquei esperando mais de quarenta minutos, para ao final ser dispensado. Ele não tinha condições de me atender. Dele me despedi com o olhar, em silêncio.

Soube que fora hospitalizado e estava na UTI. Fui visitá-lo. Contava apenas com a mímica labial para se comunicar. A doença dava um galope abrupto e, mesmo depois no quarto, de volta ao apartamento, entendia-se muito pouco sua comunicação. O Dito aconselhou a colocar recursos semelhantes ao de Stephen Hawking, prontamente negado. Nunca ouvi ou vi uma só reclamação ou um gesto de lamentação seu. Durante o tempo que o livro foi escrito sua postura foi a de um herói e não a de um agastado com a vida. Sua sinalização com o mundo foi piorando até se limitar ao ato de piscar, a mente intacta.

Pediu-me certa vez que não o abandonasse até que o livro fosse publicado. Em condições tão adversas, sem cortes, sem Internet, sem lamento, direto, até a exaustão, até o silêncio ele fez fluir sua história. Como não publicá-la? A motivação de sua vida. Hoje estou prefaciando o livro um ano e meio depois. Vi seus olhos se iluminarem, contudo a voz cega como previra. Contemplo meu amigo talado pelo destino - o que pensa de mim e do mundo?

Por detrás de seus olhos claros nascem e moram seus sonhos mesclados de muitas histórias à espera de serem escritas. Quem as escreverá?

Como uma vibração sem ar que se cria em silêncio ficarão povoando sua mente. Desta vez ninguém as levará.

Foto (da esquerda para a direita): Gabriel Sayegh, diretor cultural; Hamilton Bassit, vencedor do concurso; Fabio Kadi, presidente; Durval Tabach, coordenador do CLS; Chris Boulos, mediadora do CLS.
 

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